Eclectic Indica: tudo que eu queria te dizer
categoria: destaqueEm um tempo onde as infinitas variações tecnológicas predominam em – quase – todas as formas de comunicação, o que você diria se, de repente, recebesse uma carta de alguém? Daquelas que emociona, com cheiro de papel e nostalgia, com a grafia imprimindo a personalidade de quem a enviou. Uma carta para dizer tudo aquilo que deveria ser dito, por vontade ou necessidade, mas não foi. Perdeu-se no tempo. É esse o universo que vamos retratar no Eclectic Indica deste mês.
A peça “Tudo que eu queria te dizer”, baseada no livro homônimo da jornalista e escritora gaúcha Martha Medeiros (com mais de cem mil exemplares vendidos) e protagonizada pela atriz Ana Beatriz Nogueira, revela como a comunicação estabelecida por meio de cartas é algo extinto nos dias de hoje, através de um texto que passeia do humor ao drama com propriedade e excelência. São, ao todo, seis cartas do livro, não relacionadas umas com as outras. Quer saber mais? Então, leia, na íntegra, a entrevista exclusiva que realizamos com a escritora (que, diga-se de passagem, somos infinitamente fãs) e corra para assistir ao espetáculo, que fica em cartaz até o dia 24 de outubro, no Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro. Vale a pena conferir!


Eclectic: Martha, qual a importância da adaptação de sua literatura a outras manifestações artísticas, como o cinema e o teatro?
Martha: É uma maneira de eu ampliar o meu público. O “Divã” no cinema atingiu quase dois milhões de espectadores (sem falar nos que assistiram em DVD e pela tevê por assinatura). Quando um livro atingiria esses números no Brasil? É também a oportunidade de eu conhecer pessoas talentosas, interessantes, que me mostram novas leituras da minha própria obra. E, por fim, através do teatro e do cinema eu posso testemunhar a reação coletiva da plateia. A literatura é sempre uma relação a dois: quem escreve e quem lê. Só que não vejo meu leitor, não sei se ele está se divertindo com a leitura, se está comovido, ou se jogou o livro pela janela. Dentro do cinema e do teatro eu posso assistir meu leitor reagindo à obra.
E: “Tudo o que eu queria te dizer” é um texto familiar. Podemos dizer que trata, sobretudo, da vontade e do medo que temos de nos expressar, de verbalizar sentimentos e, consequentemente, de nos expor? Como você lida com isso no dia a dia?
M: Já fui mais contida, mas hoje não tenho dificuldades de me expressar, até porque me habituei a fazer isso por escrito, e escrever é uma espécie de terapia, destrava você. No meu livro, os autores das cartas estão todos em situação-limite, precisando soltar seus demônios para poder seguir em frente.
E: Ao escrever, você expõe muito do que sente, do que vive e do que é. Demanda coragem, não?
M: É um exercício de despudor, mas ainda assim a escrita sempre nos dá uma sensação de estar protegido, pois em tudo o que se escreve, há um componente de ficção.
E: Quando surgiu a ideia de levar o texto de “Tudo o que eu queria te dizer” para os palcos e como foi esse processo de adaptação?
M: O projeto é da produtora Kelly Goldoni, que me procurou dois anos atrás. Autorizei e por um tempo nada aconteceu, até que Kelly conseguiu o patrocínio. A partir daí, tudo andou bastante rápido. Não houve adaptação: as cartas que a Ana Beatriz Nogueira diz no palco são iguais as que estão no livro. No máximo, houve alguma edição para torná-las mais enxutas, mas não houve nenhuma reinvenção, apenas o trabalho de direção de Victor Peralta.
E: O que mais te chamou atenção na peça e como é a sensação de ter sua obra interpretada?
M: Gostei demais da montagem, justamente por ela privilegiar o texto e a atuação. Fiquei orgulhosa de ver que meu trabalho pode prescindir de adaptação e passar seu recado de forma simples e ao mesmo tempo intensa. O que chama a atenção é o talento da Ana, claro. Ela é extraordinária. Está tudo na mão dela. Se ela falhasse, não haveria espetáculo. Mas ela foi além da minha expectativa e me senti homenageada.
E: Por fim, pode contar um pouquinho sobre seus próximos projetos para gente?
M: Claro! Em outubro estou lançando um novo livro de ficção, mais um monólogo feminino, dessa vez sobre a dor do amor, de como a paixão pode enlouquecer alguém. Chama-se Fora de Mim. E estou lançando também uma agenda 2011 com várias frases selecionadas de meus poemas e crônicas, em comemoração aos meus 25 anos de carreira literária.
Adoramos o bate-papo com a Martha! Agora, é ir direto para o Centro Cultural dos Correios, que fica na Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro. Mais informações em 2253-1580. Classificação etária: 14 anos.

















